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Ensinamentos maternos

Eu sempre ouvi minha mãe ser chamada de “dona Dalva”, mas, obviamente, antes de mim ela foi apenas Dalva e, um pouco antes, ela também foi Dalvinha… E desde a época em que era Dalvinha, antes mesmo de pintar os cabelos de acaju, ela gostava de ajudar as pessoas.
Era confidente, era quem os conhecidos procuravam quanto tinham problemas ou precisavam desabafar. Desde quando ainda morava em São Caetano (na época se escrevia São Caitano), no interior de Pernambuco, e meu avô era vereador de lá!
Ela sempre foi acolhedora, sempre foi uma boa ouvinte e deu morada para quem não tinha onde ficar. Ela costumava me dizer: ajude a quem puder, mas não espere nada em troca e evite pedir ajuda.
Meu pai também foi influenciado por ela e também ajudou muita gente que precisava.
Sei que ela tem muitas histórias antes de eu nascer, mas não tenho conhecimento para contá-las, então vou me ater a algumas que pude acompanhar.
Lembro vagamente de algumas pessoas irem lá em casa, quando ainda morávamos em João Pessoa, para conversar, contar segredos e pedir conselhos.
Depois, já em Campina Grande, meus pais deram morada para uma moça que cursava enfermagem e não tinha onde morar. Não lembro muito dos detalhes porque não me contaram — até porque eu tinha apenas 5 anos —, mas sei que o nome dela era Juraci e hoje ela deve ter por volta de 65 anos.
Ela formou-se técnica em enfermagem e seguiu carreira. Minha mãe me contou que recebia cartas dela, mas depois de um tempo ela perdeu contato, possivelmente depois que nos mudamos para outro bairro em Campina Grande.
Hoje, não tenho ideia de como ela esteja, nem se ela sabe que minha mãe já faleceu.
Depois que nos mudamos, meu pai começou a se interessar por rádio amador, mas como o equipamento era muito caro, ele acabou optando por um sistema mais em conta, o rádio PX, e por isso entrou para o PX Clube, que frequentávamos nas quintas-feiras.
Lá, meu pai fez várias amizades, mas eu nem tanto, já que os frequentadores eram todos adultos e eu tinha apenas 8 para 9 anos.
Foi no PX Clube que meu pai ficou amigo de Monteiro, um jovem técnico em eletrônica que ajudou na instalação da estação de rádio lá em casa e também no carro do meu pai, um Chevette verde de quatro portas, ano 1981, cuja placa era FD 1130 e que ficou tempo o bastante na família para que eu o dirigisse por algum tempo!
Um ou dois anos depois de conhecermos Monteiro — que era chamado pelo sobrenome, seu nome é Zenóbio —, ficamos sabendo que ele tinha sido expulso de casa por divergência com o pai, que era um homem irascível e impaciente. Meu pai então descobriu onde Monteiro estava ficando e ofereceu morada lá em casa até que pudesse se estabelecer.
Ele então foi morar com a gente durantes alguns anos, enquanto trabalhava em uma fábrica como mecânico e organizava a vida. Até que se casou e foi morar com a esposa na mesma rua, só que quase um quilômetro depois.
Ele ainda visitou meu pai quando já estava com o Alzheimer bem avançado, o que fez bem a ele, mas nunca mais tive notícias.
Pouco tempo depois que Monteiro casou e foi morar com a esposa, uma irmã mais velha dele, Solange, também teve problemas e minha mãe a convidou para ficar lá em casa. No entanto, após minha mãe perceber que ela era uma pessoa complicada de se conviver — um tempo depois ela foi diagnosticada com problemas psicológicos — e como ela já trabalhava, minha mãe conseguiu um apartamento próximo de nossa casa para que ela fosse morar de aluguel. Minha mãe ajudou Solange a se estabelecer, a mobiliar o apartamento e deu suporte por um tempo.
Ela chegou a nos visitar de vez em quando, mas perdemos contato quando ela mudou de cidade.
Depois foi a vez de Zenaide e Núbia, duas irmãs mais novas de Solange e Monteiro. Elas haviam iniciado os estudos na UFPB (Universidade Federal da Paraíba, hoje UFCG, Universidade Federal de Campina Grande), Zenaide cursava Engenharia de Materiais e Núbia cursava Engenharia de Minas.
As duas ficaram por mais tempo lá em casa do que os dois irmãos — foram quase cinco anos —, até que se formaram e seguiram a vida delas.
Vários anos depois, ao ver minha mãe chorando, perguntei o que tinha acontecido e ela me falou que Núbia havia falecido de câncer no cérebro. Ela tinha pouco mais de 30 anos.
Não tive notícias de Zenaide. Ela, inclusive, foi de extrema importância no meu aprendizado em xadrez, mas isso é outra história!
Em todos os anos em Campina Grande, minha mãe recebia visitas de pessoas de várias idades que a tinham conhecido e a fizeram sua confidente, mas isso foi diminuindo até que ela se isolou depois que a filha mais nova faleceu e ela precisou cuidar de meu pai, já com Alzheimer avançado.
Depois disso, a vida dela se resumiu à família… Até falecer em 2012!
E nunca esquecerei o que ela costumava me dizer: ajude a quem puder, mas não espere nada em troca e evite pedir ajuda!

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